terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Las viejas




Em alguma esquina da Avenida 18 de julho, Montevideo, descobri a curiosa cafeteria. Entrei, lentamente, enquanto ia fazendo um rápido inventário do que a vista podia perceber.
Era um grande salão dividido em três níveis diferentes, ostentando um estilo bastante rebuscado, num dos muitos prédios antigos da cidade. As mesas e cadeiras atestavam idade indefinida, o mesmo ocorria com os balcões e luminárias; tive a estranha sensação de ter voltado, por alguma fresta do tempo, a um típico café de início do século passado. O garçom curvado, bastante idoso, descreveu com paciência as múltiplas opções à disposição para complementar qualquer café. Escolhi um cappuccino acompanhado de torradas com geléia e em seguida me pus a observar, com a necessária discrição, os demais freqüentadores que também ostentavam muitas décadas em seus currículos.
Dediquei atenção especial às duas velhas senhoras numa pequena mesa junto à janela, com visão privilegiada da rua e calçadas fronteiras. Estavam impecáveis para um figurino de 1940 talvez, mas sua elegância era incontestável, desde seus tailleurs bem cortados aos graciosos chapéus que davam vida e nobreza aos cabelos brancos. Pela proximidade de nossas mesas, não tive nenhuma dificuldade em acompanhar a alegre conversa que mantinham, ou melhor, confesso que não me esforcei nem um pouco para prestar atenção em outras pessoas que também exerciam o direito de uma conversa recheada de amenidades.
As duas estavam excepcionalmente alegres, gesticulando muito, enquanto dirigiam olhares para os passantes sem pressa daquela tarde de verão. A agitação de ambas demonstrava claramente que esperavam alguém. O nível de expectativa era tão grande que uma delas, talvez a mais idosa, repreendeu a companheira após olhar em torno:
— Contenha-se, Matilde! Vai acabar dando na vista.
— Tem razão. Desculpe, Henriqueta. Estou tão nervosa que chego a sentir calafrios.
— Quer que eu peça um chazinho de camomila para você?
— Imagina! Tudo que eu não quero hoje é um chazinho calmante.
— Então experimente aquela respiração que aprendemos na aula de yoga. Garanto que resolve.
— Você tem cada idéia, Henriqueta! Vão pensar que estou ficando maluca, praticando respiração abdominal num café.
— Ambas, não é? Estamos sim, ficando malucas. Não sei onde estava com a cabeça quando aceitei essa sua proposta sem juízo.
— Era só o que me faltava! Até parece que somos duas colegiais ingênuas prestes a cometer algum pecado.
— A bem da verdade você nunca foi uma colegial ingênua, Matilde. Ou você já esqueceu aquele professor de Física que lhe dava aulas particulares — a sós no apartamento dele?
— Como eu poderia esquecer, sua boba? Ah, era bem bonitão o professor, como era mesmo o nome, acho que esqueci. Além do mais, graças a ele não fui reprovada naquele ano. Mas nunca houve nada a não ser mão na mão, fique sabendo.
— Claro, não é, santinha?
— O que você quer dizer, Henriqueta?
— Não seja hipócrita, Matilde. Quem te viu e quem te vê, hein!
Nessa altura da conversa o garçom aproximou-se para saber se eu desejava pedir mais alguma coisa, o que me fez perder um pouco a continuidade do diálogo. Tão logo retomei minha atenção, ouvi:
— Como vou saber, criatura? A indicação foi da Margarida.
— Você já pensou que a gente possa fazer papel de bobas, Matilde? E se a Margarida estiver se divertindo à nossa custa para depois contar tudo às meninas no próximo chá?
— Nossa! Assim eu não agüento você.
— É que eu também estou nervosa. Que sabe a gente desiste e vai embora?
— Nem pensar. Estamos aqui, dentro do horário combinado, e não pretendo arredar pé. Vamos esperar trinta minutos, se nada acontecer, aí sim, vamos embora.
— É, acho que você tem razão.
A conversa parecia ter se esgotado, pois as duas senhoras concentraram-se em beber seu chá em absoluto silêncio. Aproveitei a pausa para procurar o banheiro.
Ao retornar tive uma surpresa e me arrependi do afastamento momentâneo. Elas continuavam à mesa, porém, um jovem alto e de boa aparência as acompanhava. Pude ver que ele colocou sobre a mesa uma caixa retangular, embrulhada em papel escuro que as mãos nervosas das viejas rasgaram rapidamente, para surpresa do rapaz:
— Calma, senhoras, calma! — murmurou, arregalando os olhos. Estamos num lugar público!
— Desculpe, desculpe! É a ansiedade e também o medo, é claro. Sabe, é a primeira vez, na nossa idade...
— Tudo bem, — ele sorriu, enquanto apertou afetuosamente as mãos de ambas. As senhoras não estão cometendo nenhuma falta grave. Atualmente, é um hábito muito difundido entre pessoas de todas as idades. Meu avô também aprecia muito. Podem verificar que providenciei um kit com diversos aromas. Quando precisarem de reposição é só ligar para mim.
— Sim, mas como se faz? — pergunta Henriqueta.
— Perdão?
— Quero dizer, como a gente faz para usar isso?
— É facílimo: aspirar, reter um pouco para sentir o gosto e o aroma, depois exalar lentamente.
— Será que o senhor não poderia passar lá em casa e ensinar para a gente?
— Hummm. É um pedido bastante incomum; mas, concordo. Afinal, é a primeira vez que vendo um narguilé para duas senhoras tão distintas. Qual é o endereço?

4 comentários:

Luis Hipolito disse...

Parabéns pelo blog!!!

CeciLia disse...

Ahammm... essas distintas velhinhas... Sei!

Beijos

Anônimo disse...

Querido mestre Saul, estive a poucas semanas em Montevideo e a descrição do café foi preciosa.
Obrigado pela viagem e parabens pelo blog.

Um putabraço
Renato Rimoli

Mara faturi disse...

Hummmmmmmm, adorei a foto ao lado ( eu sou testemunha deste "amor" felino) rsrsrs
Parabéns Querido amigo, estou te seguindo e lendo...
Saudades de vcs!!!
Grande abraço, com carinho e admiração*