segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

transfiguração

ela não cede em momento algum isso é que me
exaspera me desespera ergo a mão bato novamente até sentir câimbra então troco para o outro braço continuo na esperança de que se deixe atingir afinal mas não ela não cede não se entrega à dor com isso me provoca dor bem mais intensa porque não é física não tem remédio que proporcione alívio assim me repito me repiso todos os dias nesse ácido cotidiano em que me encurralo sem desfecho nem vencido nem vencedor apenas triste porque se soubesse o que sente sem nada revelar esse sofrimento não seria em vão essa tarefa teria recompensa se a cada golpe de minha mão obtivesse uma resposta que não olhos esgazeados mas secos enfim poderia descansar dizer que cumpri poderia dormir em paz sem rolar inquieto pensando amanhã vou conseguir participar de seu mistério ser compreendido em meu tormento não mais braços cansados nem boca arquejante mas transformado pelo fim desta busca me libertar da banalidade do momento por isto me esforço muito além de meus limites tento perdoar a fraqueza que às vezes me manda desistir como se fosse possível desistir do ar que se respira ou da água que se bebe da própria iluminação enfim que alcançada me fará abandonar o corpo lasso a seus pés usando o que me resta de voz para pedir perdão me redimir de todas as faltas agradecendo a concessão final de lágrimas que sempre esperei


"Vestígios dela e outras histórias", transfiguração
Disponível na Palavraria e Livraria Cultura

2 comentários:

CeciLia disse...

Bravo, Saul, Bravo! Gosto demais desse fluxo de consciência, a boca seca da frase longa, o pensamento quase mais rápido do que os dedos, do que as teclas, do que. Parabéns pela casa nova, que ela sirva de pousada, albergue ou hotel de luxo a quem chegar.

Beijo.

Lordsir disse...

Ótimo texto Saul. Parabéns pelo blog. Desejo que continues postando, essa é uma excelente janela para publicar literatura, tão difícil de conseguir visibilidade. Avante!
Abraço,
Pena Cabreira.