segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A Escalada



— Seis meses. Sinto muito. Você deveria ter me procurado há um ano, pelo menos.        
— Não pode ser! Há tantos recursos: cirurgia, quimioterápicos, rádio.      
— Não há nada a fazer. Lamento profundamente.
        Faz alguns dias que ouvi essa sentença. Tive o impulso de matar o médico. Ouvi outras opiniões, algumas mais pessimistas em termos de prazo final. Desde então, não saí de casa, não comi, nem falei com ninguém. Dormi pouco e chorei muito. Ignorei chamadas e mensagens no telefone. Pensei em abreviar a espera, mas não combina comigo. Não tenho propensão para saídas trágicas. Passei toda a vida jogando com a morte e ganhei sempre. Agora vai ser diferente, um último jogo sabendo que vou perder. Mas será do meu jeito e quando eu quiser. Então, mesmo perdendo serei o vencedor.
Hoje consegui sair. Almocei sozinho. Retomei contato com meu escritório na empresa, mas cancelei todos os compromissos agendados, inclusive ligações externas. Convoquei reunião de diretoria para esta semana. Deleguei decisões para o departamento administrativo e suspendi contato com meu corretor da bolsa. Voltei cedo para casa. Refeição simples e um Malbec encorpado. Sono pesado e sem sonhos.
Levantei cedo, vesti roupa leve, fui caminhando para o trabalho e pedi café com torradas. Tentei falar com os filhos para marcar almoço ou jantar, mas nenhum deles dispõe de tempo. Encerrei o dia, retornei a pé e me senti revigorado. Fiz várias ligações para meu grupo de viagens, rimos, combinamos jantar amanhã, e fui dormir em paz.
Acordei tarde e fiz as compras para a noite. A governanta se encarregará de tudo. Avisei à secretária que não irei à empresa hoje. Liguei para os filhos. Incomunicáveis. Fiz uma bela caminhada pelo bairro, curtindo uma sensação de liberdade incomum. Amigos confirmados para hoje, aguardei com ansiedade nosso encontro. Foi compensador. Juntos, como na última vez. Para minha surpresa, todos aderiram com entusiasmo à proposta de uma nova aventura dentro de trinta dias. Fiz questão de assumir todos os detalhes, desde as reservas de hotel e vôos até a verificação dos equipamentos. Reunião de diretoria. Fui breve. Comuniquei que me retirava da empresa e coloquei as quotas à disposição. Tudo muito informal, documentos assinados, abraços de despedida e brincadeiras sobre vida nova. Antes de sair, enviei mensagens aos filhos para combinar almoço, café, qualquer coisa. Impossível. O mais velho está saindo de férias com a mulher, o outro preparando uma pós-graduação em sei-lá-o-quê. Desejei-lhes boa sorte. À noite, súbita vertigem acompanhada de náuseas. Nada sério.
Providenciei o necessário para a viagem. A expectativa é grande e a comunicação permanente. Chequei todas as listas e não esqueci nada. Estamos em contagem regressiva, o mal-estar prossegue. Pura ansiedade. Tomei outras providências pessoais. Liquidação de todos os negócios, resgate de aplicações financeiras. Venda de todas as ações. Tudo o que tenho foi creditado numa única conta com disponibilidade permanente.
Tenho dormido pouco, saído menos ainda, apenas o suficiente para caminhadas diárias. Dedico especial cuidado à minha alimentação. Precisarei de toda a vitalidade nessa aventura que inicia dentro de alguns dias. Também não descuido dos medicamentos prescritos por meu médico. Meu estado geral parece bom, apesar do desconforto persistir. Nada que não seja administrável.Sinto-me num estado de excitação quase infantil, como na primeira vez em que viajei sem minha família, com um grupo de escoteiros ansiosos por experimentar desafios. Sonho todas as noites com isso, misturando com experiências mais recentes em que me vejo sempre criança.Finalmente. Amanhã embarcaremos. Tudo conferido. Nosso grupo aguarda, como se fosse uma só pessoa, o momento da partida. Temos conversado bastante, planejando cada passo, revendo todas as possibilidades. Hoje precisarei de um calmante para dormir.
A taquicardia se manifestou quando aterrissamos no aeroporto de Mendoza. Retiramos nossa bagagem e equipamentos. Depois de recebidos no hotel, retomamos contato com a cidade tão conhecida de outros momentos. A gastronomia e os bons vinhos embalaram nossos sonhos.
O dia amanheceu convidativo. O céu muito azul e límpido associou-se ao sol brilhante. Acordei bem antes de o dia clarear e esperei com impaciência meus companheiros para o café da manhã. Animados, de excelente humor, devoramos o que havia pela frente, prontos para dar início à programação traçada com cuidado. Conferimos o bom estado dos veículos de suporte, lotamos os bagageiros e partimos.Seguimos rumo ao Parque Provincial Aconcágua, perto de Mendoza, nos Andes argentinos. Nossa meta: o monte Aconcágua, o ponto mais alto do Hemisfério Sul, com quase sete mil metros de altitude, desafio a alpinistas de toda parte. Às margens da Rota de Alta Montanha, fizemos uma respeitosa parada no Cemitério dos Andinistas, último refúgio dos que morreram sem atingir o cume. Foi um momento de grande impacto: na parte mais elevada do cemitério, uma cruz de pedra caiada ostentava várias botas de alpinismo — homenagem a um dos vencidos. Senti-me parte do túmulo, da cruz branca, da placa que poderia ter meu nome gravado. Tristeza e inutilidade. Ali ficou boa parte da energia que eu cultivara para a maior de todas as aventuras.
Retomamos a fase seguinte do objetivo. Segui em silêncio. Não havia mais nada para dizer. A chegada ao ponto que chamam de Confluência não ofereceu nenhuma dificuldade, a não ser a primeira sensação de ar rarefeito. A próxima etapa, o acampamento base, ou Plaza de Mulas, parada obrigatória a mais de quatro mil metros de altitude, foi escolhida como local de pernoite. Apenas nosso grupo. Os que nos precederam já haviam seguido adiante, rumo ao outro acampamento. Uma noite fria para todos e, para mim, de vigília e confusos sentimentos.
O amanhecer foi um alívio. O sol afastou os fantasmas da noite e pensei que seria possível retomar melhor disposição. Todos pareciam aguardar alguma palavra minha enquanto me olhavam sem nada dizer. Apesar de veteranos naquela escalada, o clima era de apreensão. Após o café, sugeri iniciarmos a subida até Nido de Condores, situado a mais de cinco mil metros. Tinha motivos para pressa — as náuseas e dores generalizadas tornaram-se freqüentes na noite anterior. Teria de desistir se as vertigens voltassem. Entretanto, algumas horas depois, nos permitimos nova parada. A velocidade do vento e a diminuição do oxigênio nos fatigaram. Minha taquicardia completou a necessidade de um descanso maior. A subida ao próximo acampamento foi adiada para recuperação completa do grupo. Conversamos, admitimos nossos limites. Contei-lhes que precisava chegar ao cume, como necessidade pessoal, como fechamento de uma vida inteira. Escutaram-me em silêncio, cabeças baixas. Algumas horas depois recomeçamos. Senti-me confortado. Não conseguiria meu objetivo sem ajuda. Admitir isso me devolveu certo controle sobre o corpo e emoções.
Foi muito difícil chegar a Nido e a Berlim, últimas etapas antes do cume. Vacilei, precisei de ajuda em vários momentos. A vitalidade era pouca, mas a vontade me empurrou para cima. Chegamos. Todos. Ao topo. Meus olhos bêbados de azul, de gelo e neve, e uma euforia única. Sem dor, sem frio, sem náuseas. Nenhum sofrimento. Aqui eu fico. Peço aos que vieram comigo que desçam. Este momento me pertence. Entrego-me ao Aconcágua e sorrio.

2 comentários:

Maria Luíza Chacon disse...

O teu texto me prendeu do início ao fim. "Ao topo. Meus olhos bêbados de azul, de gelo e neve, e uma euforia única. Sem dor, sem frio, sem náuseas. Nenhum sofrimento. Aqui eu fico." - lindo!

Cláudio B. Carlos disse...

Muito bom.

Abraço.